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quarta-feira, 19 de abril de 2017

A eterna maldição da Classe Média Brasileira.



Tenho muitos amigos da Classe Média, tenho muito mais amigos e familiares nas classes C-, D e E. E tenho alguns conhecidos classe A e B, B- e B+.

Esqueça a classificação feita pelo governo sobre quem é classe média e quem não é, aquela classificação é simplesmente ridícula.

Enfim, conheço todo tipo de gente, de toda faixa de renda e nível educacional, e conheço bem e muito bem. Nunca vivi numa bolha da pobreza, ou da classe média ou da riqueza (claro que esta última nunca nem entrei).

Eu diria que os primeiros 20 anos da minha vida convivi 90% com pessoas das classes D e E, e até mesmo desempregados e pessoas que vivem de bico. Conheço muito bem a forma e o arranjo que essas pessoas interagem e pensam na vida e os valores que carregam, inclusive são pessoas muito boas, pelo menos para mim, me sinto bastante confortável em conversar com essas pessoas seja na rua ou no trabalho (no trabalho muitas delas são minhas colegas de verdade).

Hoje quero falar mais da Classe Média brasileira, que se assemelha a qualquer outra classe média mundial em termos de comportamento, apesar de culturalmente eu achar a classe média brasileira, doravante, CMB, muito inferior à americana ou européia.



O engraçado é que o sonho do pobre é ser classe média. Ser classe média é o objetivo da maioria. É muito mais fácil encontrar um pobre querendo ser classe média do que pular diretamente para a riqueza e uma vida de afluência. É bacana isso até, o pobre querer melhorar de vida e ter acesso a bens de consumo não-duráveis que são o marco da classe média com seu consumismo irresponsável. Para o pobre, ser rico às vezes é dispor de bens de consumo como carros, imóveis, objetos do lar, escola privada e plano de saúde, coisa que vêem nos filmes americanos ou novelas brasileiras.

A minha definição de classe média é: pessoas com curso superior, que trabalham, ganham bem, gastam muito, dispõe de vários bens de consumo, costumam comprar roupas de grifes, viajam com frequência, jantam fora de casa por motivos de lazer, vão às compras com frequência para comprar supérfluos, viajam ao exterior pelo menos 1 vez a cada dois ou três anos, pagam plano de saúde e colégio privado para os filhos. Se fosse chutar um nível de renda, eu chutaria que no mínimo o indivíduo de classe média no Brasil ganha uns R$ 4500 líquidos pra cima (não adianta força a barra dizendo que quem ganha R$2 mil líquido é classe média, eu não sou petista safado pra dizer um absurdo desses). Um casal sem filhos que ganha uns 7k somados também eu poderia dizer que são classe média. Além de tudo isso não tem uma reserva de emergência na poupança e nem ativos financeiros de nenhuma qualidade.

Vamos falar aqui sobre a maldição da classe média.

Por quê a classe média é amaldiçoada?

Primeiramente porque a Marilena Chauí (PT-SP) odeia a classe média. Como pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=lbzu9yvC4sw

Mas deixando a canalhice e a tirania de lado...
Bem, eu considero a classe média amaldiçoada porque geralmente as pessoas dessa classe vão trabalhar até morrer muito provavelmente. Além disso não vão conseguir manter o padrão de vida na velhice, vão ter que ajudar a sustentar filhos adultos e/ou netos e vão viver com muita dificuldade na velhice, talvez inclusive se mudando para imóveis de padrão mais baixo ou tendo que se mudar de cidade devido ao preço caro das capitais e regiões metropolitanas.


Outra parte da coisa toda é girar a roda do hamster a vida toda e não sair do lugar, muita intensidade e pressão, stress, décadas de trabalho para ficar sempre no mesmo lugar. O indivíduo da classe média muitas vezes dispõe de tempo livre mas não o aproveita eficientemente, melhorando currículo, inglês, cursos extras, cursos on-line, pequenos negócios, leitura de livros clássicos ou básicos, e assim fica parado no tempo.

O governo chamando você de classe média...

Conheço DEZENAS DE PESSOAS da classe média PARADAS NO TEMPO.

Se você acha que é da classe média e chegou até aqui, não páre no tempo. Quem fica parado no tempo, mais cedo ou mais tarde vai ficar para trás. Um dos problemas da classe média é achar que “já venceu na vida”, que já tem educação e ganha bem o suficiente para seguir em frente na vida. Mas não é bem assim, o mundo muda rápido, novos produtos e serviços surgem o tempo todo, margens caem, pessoas ficam bem mais informadas hoje em dia o tempo todo, setores inteiros da economia estão ameaçados como bancos, táxis, indústria do petróleo, até mesmo a classe política começo a achar que está ameaçada, câmaras de vereadores pagando apenas um salário mínimo pro vereador e por aí vai… Resumindo, você não está garantido. Seja lá quem você for ou no que trabalhar. Todo tempo novos serviços e produtos vão engolindo setores velhos e você pode ser pego com as calças na mão.

Olhe o exemplo dos taxistas, estão perdendo seu negócio para o Uber, veja que tem taxista que tem 5-20 veículos, tem família inteira que tem 4 taxistas dentro de casa. Hotel? Olha o airbnb aí. São apenas exemplos de como sua vida não está garantida, mesmo num mercado protegido.



O problema não é ser classe média, é gastar muito, consumir muito, não poupar e investir pro futuro e ficar parado no tempo. Mas infelizmente as pessoas da classe média atolam nisso aí que falei. Gastam muito, são reféns de grifes, de viagens, de itens supérfluos, de trocas frequentes de veículos, de morar num lugar que não podem (e por isso fazem financiamento), vivem no aperto com uma dezena de boletos mensais para pagar e se vier o desemprego ou uma baixa na remuneração já ficam no vermelho, esse é o padrão brasileiro de classe média.

De uns 20 anos pra cá com acesso ao curso superior e com a melhora do mercado brasileiro, muitos filhos de pessoas pobres entraram na classe média, inclusive via concursos públicos, esse pessoal é meio deslumbrado demais e consumista demais, parece que querem compensar uma infância e adolescência de privação com um consumo desenfreado, viagens, postagens em redes sociais e por aí vai. Enfim essas pessoas querem se autoafirmar como vencedoras e mostrar que venceram na vida, de certa forma venceram sim, se o seu padrão de vida é superior ao do seus pais de certa forma sua família evolui, mas isso tem que ter um sentido, não adianta só gastar dinheiro por gastar pra mostrar que está bem, isso é muito infantil e não lhe garante um futuro decente.

Um dos problemas do Brasil é que temos uma economia boa muito recente, nossa classe média ainda é muito iletrada e ignorante. Ganhou um pouco de dinheiro e crédito no banco mas não teve uma educação de base e aí ficam se achando ricos e querendo gastar e ostentar. Não é como uma classe média americana que já era filho de classe média ou mesmo a classe média européia que apesar de nem ter tanto dinheiro assim pelo menos é bem educada. A classe média do Brasil é muito deslumbrada e sem base alguma, vive com a cabeça nas nuvens e os pés na lama.


Semana passada eu estava com um amigo no trabalho que me confessou estar TREMENDAMENTE ENDIVIDADO, pensando em vender a casa (dessas de condomínio fechado de valor de mais de R$ 2 milhões) para fechar as contas, pagar as dívidas, se mudar pra um ap de 300 ou 400k e viver gastando menos. Entre uma palavra e outra o colega pergunta se eu quero pedir um delivery para almoçar, tipo uma carne que iria dar R$40 pra cada um. 

Eu: meo, já vou negar isso, isso é muito caro pra um almoço, vou comer minha marmita e dar o exemplo. O cara endividado em mais de 500k pagando financiamento de carro e pedindo delivery de 40 reais pra almoçar, podendo simplesmente comer no bandejão de graça daqui ou então trazer marmita de casa. É isso que não entra na minha cabeça. Eu acho que quando você está num buraco a primeira coisa que você tem que fazer é parar de cavar.

Eu mesmo estou lutando para baixar a fatura do meu cartão de crédito e vou conseguir, dei uma afrouxada em janeiro e fevereiro, viajei e agora as faturas estão chegando meio altas (de nada, LATAM). Não quero passar o resto da minha vida puto toda vez que vejo a fatura do meu cartão no meu email, não nasci pra ser uma máquina de trabalhar e consumir e ser um pagador de fatura de cartão de crédito, eu nasci para ser livre dessas preocupações banais. Ficar puto quando vê a fatura do cartão de crédito é um sinal de fraqueza, burrice, humilhação, ignorância e descontrole mental, financeiro e emocional. Se isso acontece com você, revise seu modo de viver.

Esse mês meu aporte vai ser bem magro (em relação à média), só uns 3,7k + os dividendos que vou receber durante o mês (perto de 4k). E isso me fez pensar muito, não é hora pra frear meus planos, nem por um momento, o fato é que deixei de receber um dinheiro bom esse mês para receber ele um pouco mais na frente parcelado para ajudar nas contas da empresa. 2017 é ano de foco e crescimento total, sem delongas e sem desculpas. Meu objetivo é terminar o ano com 56% da estrada concluída até a IF e estou atualmente em 40%, então caminhar 16% num único ano será um passo gigantesco.

Legal, Frugal, você falou e falou e falou, eu concordo um pouco, discordo um pouco mas e aí? O que fazer então? Quais lições posso tirar disso?

Bem, se você for pobre, faça com que saia da pobreza direto para a riqueza, sem passar pela classe média. Se você entrar no clima de classe média dificilmente vai sair dela. E isso é perfeitamente possível.

Se você for classe média, evite os comportamentos prejudiciais dessa classe, aproveite que tem dinheiro e internet, pague cursos, leia livros, invista em você, gaste menos (muito menos) e se prepare para sua aposentadoria e a depender cada vez menos da renda do seu trabalho.

Grande abraço,

Frugal

9 comentários:

  1. Excelente post,
    A classe média na verdade é pagadora de contas. A maioria trabalha apenas para isso.

    Abraços.

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    1. Mais um excelente texto, cheio de ensinamentos! Esse blog é foda. Abraços.

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  2. Concordo com o texto, principalmente na questão da classificação da classe média adotada pelo governo, sem contar que é real que esquerdistas odeiam a classe média. O problema do povo que sobe de nível é o fato de gastar mais, quanto mais se ganha mais se gasta !

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  3. Parabéns pelo post, Frugal. Pensamos da mesma forma. Viva o aporte.

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  4. Muito belo o post mesmo.... também penso dessa maneira Frugal!

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  5. Você esta certo. É igual aquele ditado, pai rico, filho esnobe e neto pobre. Você é ou não é. Quantas pessoas conheço, mesmo parentes, que dão tudo para esta nova geração, viagens, festas, maquinas potentes e no fim a molecada não sabe usufruir e coloca tudo a perder. O dinheiro vai e vem, assim como o poder. Infelizmente há um cultura da pobreza no Brasil muito grande. A pobreza é glorificada e quem é rico tem que conviver com agressões e gente querendo tirar tudo de você a todo momento. Desde os banqueiros até empregados querendo te foder na justiça por qualquer motivo. Ser rico no Brasil é diferente, se exige muito mais atenção e ousadia para não ver sua riqueza construída ou ganha ser devorada por parasitas malandros. Que não tem remorso em estuprar sua família e lança los em alguma favela da vida. Estes dias fui a uma festa de formatura do ensino médio, escola PARTICULAR, "classe media alta" por assim dizendo. E a molecada colocou na playlist musicas funk carioca, baile de favela e afins. Meninos e Meninas que não tem a minima ideia do que é viver naqueles guetos malditos. Há sempre os que salvam e que não aceitam esta cultura de bosta. Mas os números não mentem.

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  6. Um ótimo texto, parabéns!
    Gostei muito do blog
    Um abraço

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  7. Fala Frugal!

    Belo texto. Mas sabe qual a mensagem que mais fica em mim depois de lê-lo? É que é impossível dizer o que é classe média.

    Cara, na verdade a classe média é uma ideia intersubjetiva. Ela vive na consciência subjetiva dos indivíduos. Não tem como classificar o termo. É uma invenção e cada pessoa pode dar a definição que achar melhor.

    Uma pessoa na corrida de ratos não necessariamente é classe média. Ela é uma pessoa na corrida de ratos. Uma pessoa endividada idem. Existem pessoas nessas situações em todas as faixas de renda familiar.

    Vamos supor, por exemplo, eu. Eu sempre vivi muito aquém, financeiramente falando, das minhas possibilidades. Justamente por priorizar a liberdade financeira, a paz e a boa saúde.

    Que classe, de todas essas ordens intersubjetivas eu seria? Dos ricos? Não, pois o local que moro, minha moto, meu carro e meus hábitos me colocarão na faixa de renda intermediária. Mas eu não tenho dívidas. E já saí da corrida de ratos faz tempo.

    É complicado fazer definições sobre isso!

    Grande abraço, meu amigo!

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