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quinta-feira, 23 de março de 2017

Ainda bem que não passei num concurso público.

Não posso falar pelos outros, posso falar apenas de mim.

Muita gente melhorou um pouco de vida após passar em concurso público, têm seu emprego, seu salário no final do mês, sua aposentadoria mais ou menos garantida, uma vida estável e previsível. Sei que tem muita gente que combina com esse perfil, mas eu seguramente não. As pessoas são assim, diferentes.
Lembro que nos anos 2000-2010 principalmente, essa primeira década, depois que Lula ganhou a presidência e começou a promover milhões de concursos públicos com salários muito maiores do que eram e muito maiores do que no setor privado, muita gente ficou encantada, os melhores alunos dos colégios, das faculdades, a maioria das pessoas queria ser funcionário público, a economia do país crescendo graças a uma onda de prosperidade mundial, subida dos commodities (ferro, manganês, petróleo), a China puxando o mundo todo com seu crescimento alucinante e as bolsas subindo sem parar, tudo isso tinha uma conjuntura boa, e os concursos públicos estavam bombando, muitos cursinhos abriram apenas pra dar aula, apostilas sendo vendidas nas bancas, e o pessoal só falava nisso, aqui e ali alguém passava em algum concurso e era uma festa, motivo de orgulho para a família toda.
Eu mesmo tentei passar em um concurso, o da PRF, lá pelos anos de 2001-2002, ainda estava na auto escola quando fiz a prova, não me preparei muito, estava de férias, estudei uns 20 dias para a prova apenas, tirei uma nota muito boa, mas não deu pra passar, fiquei por muito pouco, umas 30 vagas atrás do último mais ou menos, não lembro direito, mas era algo entre 30 e 40.
Dois grandes amigos meus passaram, e estão lá até hoje, o salário para a época era muito bom, uns 5 mil reais líquidos, acho que em dinheiro de hoje seria quase uns 10 mil, isso pra um moleque de 18 anos e sem nada na vida era MUITA, MUITA COISA, então esses meus amigos passaram, ganharam o dinheiro e curtiram bastante, curtiram desde o curso de formação até uns 6-7 anos depois disso, ainda solteiros, sobrava dinheiro pra balada, viagens, praias, mulheres, tudo…
Mas basicamente parou por aí, eu dei só um exemplo que conheço, os caras continuam exatamente na mesma, hoje em dia tem uma vida apertada, os salários não foram devidamente corrigidos imagino, e depois de uns 14 anos num emprego desses, faltando mais uns 15 anos pra se aposentar, o que você iria fazer? Recomeçar em outra coisa? Não.
O que eles me disseram é que não vale a pena, que vão ter correções salariais mais lá na frente (promessas) e que outros concursos hoje em dia estão pagando menos. A vida estagnou, e virou uma rotina monótona de trabalhar e esperar o fim do mês para receber um dinheiro que vai lhe manter vivo, apenas. Sem ter como sonhar muito, sem empreender, sem perspectivas de melhora, sem investimentos, ganhou, gastou. É mais ou menos assim que funciona a cabeça de um funcionário público padrão (não me falem em exceções, todo mundo sabe que tudo tem exceção). E como eu não era melhor do que eles, nem mais inteligente, poderia estar na mesma, ganhando ali meus 10 mil por mês, casado (talvez nem um casamento tão bom financeiramente falando) e com um ou dois filhos.
Não estou fazendo juízo de valor de quem optou por isso, inclusive podem estar bem felizes de fato, na carreira que citei ou em qualquer outra. O ser humano tende a se acostumar e a justificar a sua própria vida e a sua rotina e jeito de viver para afirmar para si mesmo que está tudo bem, e assim vai ficando cada vez mais dentro do casulo.
Pessoalmente talvez eu estivesse feliz ou infeliz, bem provável que infeliz, porque você acaba ficando com muito tempo vago para ler, conversar com as pessoas e ver como o mundo funciona de fato. Quando eu tinha 17-18 anos, óbvio que não sabia de PN do mundo, nem de emprego, concurso ou faculdade, eu só estava numa pior e esse salário seria uma imensa fortuna, que até daria pra ajudar minha família.
Agora me pergunto:
Teria eu passado no mesmo vestibular que passei?
Teria me especializado, trabalhado em diversos lugares e cidades, na área pública e privada?
Teria feito dezenas de cursos, estudado inglês, lido muitos, muitos livros de tudo que é assunto, teria estudado emigrar, teria montado empresa, teria estudado finanças, teria o meu comportamento atual e a minha visão do dinheiro atual? Muito provavelmente não.
Como já falei algumas vezes, você é a média das pessoas com quem mais convive, e eu só iria conviver com os funcionários públicos que eu ia conhecer, iria adquirir seus valores, crenças e convicções, e talvez hábitos de consumo.
Hoje em dia vejo que talvez a minha NÃO APROVAÇÃO naquele concurso pode ter feito TODA A DIFERENÇA na minha vida. Depois daquilo passei a me dedicar mais, trabalhei em empresas privadas mesmo, ficava todo dia pensando em como trabalhar mais e melhor e produzir mais, pesquisava diversas carreiras, vivia no Google fazendo as perguntas mais esquisitas e pesquisando tudo, tudo mesmo, até sobre como trabalhar numa lavoura na Inglaterra eu pesquisei, apenas para melhorar o inglês e ganhar um dinheiro pra se manter.
Enfim, a minha CURIOSIDADE sobre as milhares de possibilidades que eu tinha naquela idade, me fez pesquisar muito, curiosidade e necessidade também de se incluir em algum lugar pra estudar e ganhar dinheiro. Talvez eu tivesse me acomodado no concurso público, que é mais ou menos o padrão que a gente vê por aí mais frequentemente.
Tem gente que apesar de passar em concurso público continua seguindo em frente e empreendendo na carreira, seja passando em concursos melhores, ou fazendo mestrad0/doutorado, dando aula em faculdade, abrindo empresas, etc… mas sei que essa é uma minoria, a que não vê o cargo público como principal provedor da sua vida e das suas contas.
Se você é funcionário público e está lendo isso aqui, faça uma reflexão, faça um julgamento de si mesmo, das suas escolhas, dos seus planos futuros e se é isso mesmo que você quer para a sua vida. Será que valeu a pena em uma fase da sua vida? Com certeza acho que sim, mas e para sempre, até se aposentar? Você acha mesmo que vai valer?
Em relação a esses meus dois amigos, eu diria que os nossos últimos 10 anos foram bem diferentes, os deles foram muito mais legais, divertidos, com recursos abundantes e muita alegria, enquanto os meus não, também não foram um inferno, foram mais ou menos normais, mas sem nada demais, agora o que me impressiona e o que me motivou a fazer esse post foi uma conversa que tive com um deles, e como eu percebi a desesperança no futuro, o arrependimento de ter ficado parado no tempo só gastando, o medo da aposentadoria ser ruim (provavelmente vai piorar muito), [chegou até a falar que não ia ter condições de constituir uma família como queria], fora a escalada da violência e o sucateamento da polícia (também está acontecendo em outros órgãos públicos como saúde e educação), enfim, o governo está bem quebrado e isso está tirando o sossego dos funcionários públicos, os aumentos festivos não irão ter mais (exceto a alta casta do legislativo e judiciário) – o pessoal do Executivo está realmente em apuros.
Dessa forma, um concurso público também embute um CUSTO DE OPORTUNIDADE muito grande, o de estar fora, na guerra do mundo privado, na selva sem lei que é o mundo real, onde você tem que se virar e matar um leão por dia, lidar com chefes canalhas, diretorias safadas e muito calote e banditismo político e corporativo, e se cresce com isso, se cria referências e se aprende muita coisa, enfim, acho que a vida tem uma dinâmica muito maior, a roda gira muito mais rápido e o indivíduo sai bem mais lapidado e afiado do que se estivesse atrofiando num serviço público monótono apenas pra garantir o contra cheque.
Particularmente depois dessa fiquei até aliviado, para mim os próximos 10 anos serão muito bons, e os outros 10 melhores ainda, a perspectiva de melhora aumenta com o tempo e não o contrário, e o ser humano vive baseado também no futuro que o espera.
Pelo visto nem tudo são flores, uma coisa boa hoje pode se tornar ruim ou sem esperanças amanhã, ou simplesmente não vai mais caber em você, como uma roupa velha que não acompanha o seu crescimento.
O funcionário público vai ter uma vida estável, e isso significa que ele não vai a lugar algum, ele vai ficar em um lugar, plantado igual uma árvore, se não economizar muito, aportar, e fizer outras coisas na vida, com certeza vai enferrujar. A estabilidade têm o seu lado ruim também.
Grande abraço,
Frugal.
P.S.: Em tempo, esse foi o CENTÉSIMO post no blog. Como passa rápido e como as idéias para novos posts vêm naturalmente na cabeça. Foram 100 posts desde dezembro de 2015.
Obrigado a todos os leitores e amigos blogueiros e também ao pessoal que comenta, essa interação é o oxigênio do blog.
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Um comentário:

  1. Isso é verdade. O serviço público será cada vez menos atraente, reajustes menores, aposentadoria mais difícil, condições de trabalho piores...

    O pessoal antigo, dos início dos anos 2.000 pra trás, esteve acostumado a nadar em águas calmas durante todo esse tempo. Por isso, será muito difícil, quase impossível, aprenderem a encarar a nova realidade. A maioria dos colegas (mesmo com salários na faixa dos 20k por causa dos penduricalhos incorporados) estão lascados, cheios de dívidas, vivem no rotativo e contando os dias para o pagamento cair. E se atrasa um dia...

    Por fim, o salário de PRF em 2002 tava longe dos 5k líquidos, viu... rsrsr

    Inicial R$ 3.067,74
    Final R$ 5.699,10 Brutos

    Atualmente (desde jan/2017), o salário da PRF tá assim:

    Inicial R$ 9.043,98
    Final R$ 15.121,30

    Fontes:
    http://www.planejamento.gov.br/secretarias/upload/Arquivos/servidor/publicacoes/tabela_remuneracao/2002/tab_10_dez2002.pdf (pág. 71)

    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/L13371.htm#anexo2 (anexo II)

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